
Por muito tempo, infraestrutura hospitalar foi tratada principalmente como uma área de suporte às operações. Hoje, porém, decisões sobre manutenção, atualização de ativos, tecnologia e expansão estão cada vez mais conectadas à estratégia das organizações de saúde.
O desafio está em definir prioridades diante de necessidades crescentes e recursos limitados, sem comprometer a segurança, a eficiência da operação ou a experiência do paciente.
Para Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, a infraestrutura está diretamente relacionada à segurança do paciente e à capacidade de sustentar a operação hospitalar. Mais do que uma estrutura física, portanto, trata-se de um componente que interfere na própria capacidade de prestar assistência.
“A infraestrutura é uma área estratégica porque não existe cuidado ao paciente sem estrutura. É uma questão de proteção, tanto para o paciente quanto para o conselho”, afirmou o executivo na Hospitalar 2026.
Essa dimensão estratégica também aparece quando os hospitais precisam definir quais demandas devem ser atendidas primeiro. Em um ambiente de recursos restritos, manter todos os ativos, atualizar estruturas e incorporar novas soluções simultaneamente não é uma possibilidade. A questão passa a ser estabelecer critérios para a alocação do capital.
“As necessidades são grandes, mas os recursos são finitos. O que é fundamental é escolher o que precisa ser executado com base em prioridades claras”, disse Parrini.
O desafio de administrar um backlog crescente
A dificuldade de priorização ganha outra dimensão quando considerada a existência de um backlog de melhorias. Para Júlio Vieira, CEO do Hcor, os hospitais precisam lidar permanentemente com uma diferença entre aquilo que gostariam de realizar e aquilo que efetivamente conseguem financiar.
“Os nossos desejos são sempre maiores do que os recursos disponíveis. Por isso, é necessário um planejamento estratégico alinhado à realidade do dia a dia”, disse o executivo na Hospitalar 2026.
Nesse cenário, a manutenção e a renovação da infraestrutura não podem ser tratadas apenas como despesas futuras. A capacidade de preservar os ativos existentes também está relacionada à sustentabilidade da operação no longo prazo.
Vieira alerta para o risco de defasagem quando os investimentos não acompanham a deterioração dos ativos. “A sustentabilidade exige que olhemos de forma estratégica para onde vamos colocar nosso dinheiro. Para melhorar, o investimento deve ser superior à depreciação”, explicou.
O desafio está justamente em conciliar diferentes necessidades. O hospital precisa investir para crescer, substituir ativos que chegaram ao fim de sua vida útil e, ao mesmo tempo, incorporar inovação. Sem uma definição clara de prioridades, diferentes demandas podem competir entre si sem necessariamente contribuir para os objetivos estratégicos da organização.
“É preciso equilibrar investimentos em crescimento, reposição de ativos depreciados e inovação. A clareza dos objetivos da empresa é fundamental para evitar escolhas erradas”, afirmou Vieira.
Quando a infraestrutura chega ao paciente
A relevância da infraestrutura também pode ser medida pela experiência de quem utiliza o hospital. Para Rogério Quintela Pirotto, diretor-geral do Hospital Santa Catarina – Paulista, a discussão não deve se limitar àquilo que o paciente consegue visualizar, mas considerar a disponibilidade e o funcionamento efetivo dos recursos.
“O que é visual é diferente da disponibilidade de um recurso funcionando. A infraestrutura precisa ser atualizada e disponibilizada de forma eficiente para atender às demandas”, destacou o executivo.
Problemas aparentemente operacionais podem, nesse contexto, ter impacto direto sobre a percepção de qualidade. Um elevador indisponível durante semanas ou um sistema de climatização que não funciona adequadamente são exemplos de situações em que uma falha de infraestrutura passa a fazer parte da experiência do paciente, do médico ou da operadora.
“A indisponibilidade de funcionamento da estrutura provoca um efeito contrário na satisfação do cliente. A infraestrutura deve ser funcional para que o cliente não perceba o que não consegue enxergar, garantindo uma experiência positiva”
A perspectiva reforça que eficiência da infraestrutura não significa apenas possuir equipamentos e estruturas modernas. É preciso garantir que esses recursos estejam disponíveis, funcionando e integrados às necessidades da operação.
Tecnologia e produtividade entram na equação
A discussão sobre infraestrutura também passa pela capacidade de incorporar tecnologia e, principalmente, transformar tecnologia em produtividade. Parrini trouxe para o debate impressões de uma recente viagem à China, destacando uma “ousadia maior” e uma política de estado que prioriza ciência e tecnologia.
Entre os aspectos observados, ele chamou atenção para a velocidade na resolução de problemas e para a capacidade de mobilizar profissionais em torno de determinados desafios, citando o exemplo de 300 engenheiros trabalhando juntos para encontrar soluções em poucos dias.
Outro ponto observado foi a aproximação entre academia, empresas e hospitais, criando condições para o desenvolvimento de tecnologias próprias. A experiência também chamou atenção pela produtividade dos processos.
Em uma situação observada em um tomógrafo, Parrini descreveu um nível elevado de eficiência, marcado por “nenhuma palavra a mais” do que o necessário. A percepção reforça uma questão central para a gestão hospitalar: a tecnologia ganha valor quando está associada à otimização dos processos e à capacidade de produzir resultados com maior eficiência.
Cooperação para ampliar a capacidade de investimento
Se a limitação de recursos é um dos principais desafios da infraestrutura, a cooperação entre instituições aparece como uma alternativa para aumentar a eficiência na utilização do capital.
Vieira citou a criação da Ahfip – Associação dos Hospitais Filantrópicos Particulares como uma iniciativa voltada à busca por ganhos de escala e otimização de recursos por meio de parcerias.
“Nos unimos para ganhar mais potência. Por exemplo, contratamos um operador logístico de insumos no interior e dividimos os custos. Mesmo sendo competidores, podemos cooperar para crescer juntos”, afirmou.
A lógica também se estende à criação de grupos técnicos voltados à discussão e implementação de modelos de negócio mais eficientes. Nesse modelo, a cooperação não elimina a competição entre organizações, mas permite compartilhar determinadas estruturas, conhecimentos ou soluções quando isso pode gerar ganhos para os participantes.
“A cooperação é essencial para enfrentar os desafios do setor e garantir que os recursos sejam utilizados de forma estratégica”, disse.
A infraestrutura hospitalar aponta para uma mudança de perspectiva: não basta administrar o que já existe. É necessário decidir continuamente onde colocar recursos, quais ativos precisam ser preservados ou substituídos, quais tecnologias podem gerar ganhos de produtividade e como a estrutura pode contribuir para uma experiência melhor de cuidado.
Nesse contexto, infraestrutura deixa de ser apenas uma condição para o funcionamento do hospital e passa a integrar a estratégia de sustentabilidade, eficiência e qualidade da organização.
“Em um setor tão desafiador quanto o hospitalar, é fundamental que a infraestrutura seja tratada como prioridade para garantir a segurança do paciente e a eficiência das operações”, finalizou Parrini.





